Filhos: o que queremos passar?

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Filhos: o que queremos passar ? Não sei se eu tenho essa resposta na ponta da língua, mas quero muito compartilhar com você nossa vivência.

Manuela e José nasceram num lar onde não existem “papéis” de homem e mulher. Wagner e eu estamos a 11 anos juntos e construímos nossa relação muito pautada na igualdade e democratização de tarefas e ações em prol da nossa família. Nunca houve uma diferença entre quem lava a louça, arruma a casa, trabalha, ganha dinheiro, cuida.

Me lembro que aos 8 meses de gravidez da Manu, ele optou por lagar o emprego como arquiteto em Campinas para ficar perto de nós. Eu sempre fui muito enraizada e sempre foi muito difícil para mim deixar minha base, minha estrutura.  Estava grávida e me preparando para a chegada da pequena, trabalhando muito mas numa fase cheia de questionamentos sobre o que eu queria fazer da minha vida, sobre qual caminho seguir.

Decidimos juntos que ele voltaria mesmo que, para muitos, isso parecesse uma loucura, pois estávamos abrindo mão da nossa “estabilidade financeira” para nos concentrar no que realmente importava naquele momento: nossa família.

Quem queremos ser aos olhos dos nossos filhos?

Foi nesse momento de reclusão que discutimos muito sobre quem queríamos ser aos olhos de nossos filhos. O que queríamos passar para eles? Que tipo de exemplo seríamos?

A resposta? Queríamos que eles pudessem ter como exemplo pessoas que acreditam que o trabalho pode ser algo prazeroso e não apenas financeiramente interessante. Queríamos que eles soubessem que os apoiamos em suas decisões e nos caminhos que desejam seguir pela vida e, para isso, é necessário ACREDITAR, correr atrás, dar o melhor de si. Parece um discurso cheio de romantismo e um tanto sonhador, mas quer saber? Não, não é!

Como prova disso resolvemos AGIR e correr atrás do que realmente queríamos. Wagner deixou a arquitetura de lado para investir em sua carreira de músico e eu deixei de fazer vestidos de noivas (o fiz durante quase 8 anos) para me dedicar integralmente à ilustração. “Mas como eu vou viver de desenho?”, eu mesma me perguntava. Com a emoção e os hormônios aflorados, tudo parecia muito confuso para nós. Mas era uma confusão que, de alguma forma, fazia sentido, era necessária, crucial.

Decoramos sozinhos o quarto da Manuela pois não encontrávamos no mercado o que desejávamos. Nesse processo eu comecei a desenhar sem parar, buscando aquilo que eu desejava para o quartinho da nossa filhota. Foram alguns meses nesse processo e quando nos demos conta: lá estava o nosso nicho, o nosso novo negócio. Feito de dentro para fora, o Abê Studio Criativo foi como uma luz que se abriu e que fez total sentido dentro do contexto que estávamos vivendo.

Minha produção foi absurda em muito pouco tempo. As ilustrações iam pipocando através de meus pincéis e eu, simplesmente, não conseguia parar. Quando percebemos, tínhamos um extenso material para começar nossa nova jornada.

Começamos.

Transição profissional e nascimento dos filhos

Nossa transição profissional foi, de certa forma, fundamental para os pais que nos tornaríamos tempos depois. Alinhar os pensamentos e sentir-se grato pela caminhada foi essencial para nos sentirmos fortes e capazes de cuidar das crianças.

Não, não foi fácil. Muitas vezes nos perguntamos se esse era realmente o caminho. O retorno financeiro não veio imediatamente e víamos nossa poupança indo embora nesse momento em que tudo estava transitório. Foi interessante porque nosso conceito de “estabilidade” mudou drasticamente. Ser estável, para nós, não era mais ter a carteira assinada ou o salário garantido no final do mês. A estabilidade mais importante era a EMOCIONAL. Sentir que estávamos fazendo algo em que acreditávamos nos dava sanidade (rs) e calma para lidar com o momento de tantas mudanças. Passamos de marido e mulher para: marido e mulher, pais e sócios (Wagner cuida da parte administrativa do nosso Estúdio e chefia a equipe de design), o que, certamente, intensificou nossa convivência e nossos atritos.

Discutimos muito, brigamos muito, choramos muito, mas nosso alinhamento de ideias nos ajudou a passar por essas fases mais complicadas. Olhávamos um nos olhos do outro e dizíamos: “vai dar tudo certo”.

E deu!

O retorno veio com a procura das pessoas por um design diferente e sensível, exatamente o que estávamos dispostos a fazer. Acho que eu sou um pouco assim, meio visceral demais. E acho também que todas as pessoas tem um lado assim, talvez por isso conseguimos estabelecer relações de muita identificação e compartilhamento de ideias.

Não acho que sejamos o exemplo ideal para você, sua amiga, seu vizinho.

Mas acredito na força das histórias vividas por outras pessoas e que essa força pode sim inspirar, dar um “clic”, mostrar outros caminhos.

Por isso estou aqui escrevendo sem parar, um tanto emocionada, e muito feliz que você esteja lendo.

Acredite, há outras formas de viver. Basta começar.

Um beijo

Lu

 

 

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